10/07/2008

Heloísa e o Bando do Balança.


Acordei feliz e cantando, e não era à toa, não tinha nem uma semana que havia começado um namoro com uma das meninas mais belas do colégio, a Heloísa, gente boíssima, linda e cheirosa, e que fazia e talvez ainda faça parte do imaginário da maioria dos meninos da escola, como eu, hoje marmanjões. Eu tinha 14 anos e estudava em escola pública, o Colégio Camilo Castelo Branco, no bairro do Horto ao lado do Jardim Botânico no Rio de Janeiro. 
  No caminho para a escola eu estampava um sorriso de orelha a orelha, parecia flutuar. Quando entrei na sala a turma inteira gritou em coro: --- Ta namorando! Ta namorando! Ta namorando! Nosso namoro foi descoberto, viramos tomates de tanta vergonha. Nós tínhamos um acordo, não namorar na escola, senão iriam encher o nosso saco, os mais novos dando rizinhos e fofocando e os coroas dizendo: --- Ah, que lindinhos, que fofinhos. Só sei que passei por duas ou três aulas concentradíssimo, desenhando corações e escrevendo poesias, como poderia imaginar que logo toda aquela alegria se transformaria em tensão. 
No recreio, estava jogando futebol com bola de meia com alguns colegas e o jogo estava quente, não me recordo se ganhamos ou perdemos, mas me lembro do sol forte e da poeira da terra batida e do sentimento aguerrido de querer partir pro gol, da marcação acirrada dos oponentes, que eram de outra turma. Bem, encerrada a partida e o recreio com o sinal da escola, rolou uma encrenca, um dos meninos do time adversário se aproximou de mim e perguntou: --- Não é você que está namorando a Heloísa da turma 205? --- Sim, por quê? Perguntei. --- Porque eu quero dar uns amassos nela, ela é muita boa. Pronto, foi o suficiente, não agüentei e dei uma peitada nele, quer dizer, na barriga dele, porque ele era muito alto, mas, muito magro. Ele levantou o braço pra me bater, mas, eu peguei o braço dele e o empurrei, ele caiu, e quando levantou veio brigar de novo e outra vez a cena se repetiu; ta lá um corpo estendido no chão. Quando lá vinha ele de novo e agora junto com uns três amigos, o inspetor chegou e apartou a briga ameaçando nos levar pra diretora. Ele foi embora gritando que ia me pegar e dar porrada na Heloísa. 
  Voltei às aulas, preocupado, pois, o cara era da temida Turma do Balança, um bando de 20 a 30 garotos barras-pesadas de um condomínio próximo a escola, que azucrinavam a região e a todos que ficassem no caminho. Mas, parecia que o encanto por Heloísa era mais forte do que o temor pelo bando, pois, logo, esqueci da briga e continuei a estudar, quer dizer, a desenhar poesias e escrever corações, opa. Na saída da escola ainda estava meio nas nuvens, tanto que quando percebi que restavam apenas eu e um colega na sala, e que todo mundo já tinha ido embora, me veio à cabeça, a imagem do bando do Balança, olhei pra o Marcelo e perguntei: --- Vai pra Botafogo? --- Vou e você? --- Vou contigo, mas tenho que lhe contar uma coisa. Disse eu. No caminho da saída contei-lhe toda a história da briga e que o garoto tinha nos ameaçado, mas que ele não se preocupasse que não ia acontecer nada, pois, quem falava muito fazia pouco. --- Ih, andar contigo agora é perigoso, né? Abre o olho, e agora Arnaldo? --- Agora não vai acontecer nada, é muito cedo, ele vai querer me pegar amanhã, depois que chamar a turma. Fica tranqüilo que a gente vai olhando de longe. O Marcelo também era de paz, com a diferença que não era um ímã de encrencas e malas, nunca, em anos de convivência o vi numa briga. 

  Chegando ao portão vimos que quase todos os estudantes já tinham ido embora, então nos apressamos em atravessar a rua e ir pro ponto de ônibus a uns cem metros. No meio da rua alguém me jogou um resto de manga chupada na perna, já me virei xingando a mãe, quando vimos, havia uns 20 garotos encostados na parede e um deles era o tal da briga, petrificamos, baixamos a bola, engasgamos e disfarçamos em direção ao ponto como se nada tivesse acontecido. Aí o Marcelo sussurou: --- Lá vem a galera em nossa direção. E agora? --- Ó, se eles nos juntarem, corremos para a padaria e pedimos ajuda de alguns adultos. --- Olha pra padaria! Só tem duas velhinhas. --- Então podemos entrar na garagem da Globo, mas sairmos correndo na área deles é suicídio.

Em segundos estávamos cercados e um deles veio tirar satisfação. --- Agora eu quero ver, quem é o filho da puta aqui? Quem é, quem é? --- Veja Bem! Eu disse, quase susurrando. --- Só é filho da puta quem se sente filho da puta. Tentando amenizar e sem dar o braço a torcer. Aí o garoto que brigou comigo na escola entrou na roda e me encarou: --- Quero ver cair dentro agora? --- Mas, você queria bater numa garota?! Disse eu. Instintivamente aproveitei pra convencer o bando dele que ele é quem estava errado, evidenciando a sua ameaça sem causa a uma menina de 14 anos e que se ele quisesse poderíamos acertar as diferenças ali, mas sem covardia, só eu e ele. Se sentindo encurralado o cara começou a me xingar, rir amarelo e a sacanear um dos amigos dele, um saco de pancada, como que para tirar a atenção. Quando o que me jogou a manga parece que sentiu o constrangimento do amigo e saiu andando em direção à padaria e dizendo pra eu daqui pra frente tomar cuidado na área deles, e que se eu vacilasse ia levar uma surra, e todos o acompanharam, azucrinando e dispersando e atravessaram a rua, enquanto isso, Eu e Marcelo fomos andando para o ponto seguinte, e só nos sentimos aliviados quando fizemos a curva, e já não éramos vistos. Esperamos o ônibus e nada, mas ia passando o “quinhentão”, apelido do ônibus que fazia um trajeto curto, mas que não servia pra gente, parou na nossa frente. E quem estava nele? Todo o bando do Balança gritando e batucando, quando o ônibus partiu, esse maluco aqui fez sinais obscenos pra galera,  pensando que eles não poderiam mais nos atingir. Imagina o que aconteceu? Eles fizeram o motorista parar e abrir a porta do ônibus, lá vinha a galera toda que nem feras pra cima da gente, quem nos salvou foram três garis que imploramos para que nos protegessem, aí nos cercaram e o pau comeu, porque eles eram muitos, eu era ateu, mas, assim mesmo Deus mandou o nosso ônibus, no qual entramos aos trancos e barrancos quase sem camisa e descabelados, e ainda acertei um chute, tipo coice em um que pegou minha perna. Cacete, hein?!
No dia seguinte uma comissão de pais pedia segurança da PM na porta da escola. Heloísa e eu tivemos que namorar e andar escondidos durante semanas, não ir às festas do Piraquê no domingo à tarde e, viver como perseguidos pelos cantos escuros de dois Bairros. Romance e adrenalina.

Mistério em Copacabana


 Teve uma época que pegou uma moda entre meninos pré-adolescentes e adolescentes, de fazer coleção de símbolos de carros, qualquer objeto de um carro podia fazer parte da coleção, menos o carro dos pais e dos pais de amigos, e com um detalhe, quanto mais novos os carros mais importância tinha a peça, mais valor agregado, de perigo, de rebeldia sem causa. E decorava um quarto inteiro; calotas, frisos, símbolos do caput, brucutu (aquele que expira água no vidro), valia tudo e havia até mercado paralelo de troca, na rua, no turno da manhã ou da tarde, adaptável a agenda dos “colecionadores” infanto-juvenis. Ou delinqüentes? 

Pois bem, nessa época a família de uma Tia estava morando em Copa, e um primo da minha idade, me chamou para passar o final de semana na casa dele. Achei ótimo, uniria o útil ao agradável, seria divertido e meu primo podia não só me ajudar a explorar o novo mercado promissor de símbolos para minha coleção, como iniciar a dele. 

A moda acabou rápido, porque os pais acabaram vendo que quase nada era de ferro-velho. Mas antes disso, minha turma de rua deu um enorme desfalque no bairro do Jardim Botânico e Humaitá e, eu e meu primo em todo um quarteirão de Copacabana, quando saímos portando uma bolsa, cada um, e enquanto um de nós, encostava no carro e ia tirando as peças sem chamar atenção, o outro ficava vigiando para identificar o possível dono, e dar um toque sobre suspeitos de alarme. Tudo andava bem, já tínhamos uma boa quantidade de símbolos para complementar minha coleção e iniciar a de meu primo, mas de repente, aparece em nossa frente um tremendo Mercedes com um símbolo que faltava em minha coleção, aquela estrela. Fiquei encostado na frente da estrela tentando arrancá-la, mas, estava difícil, ela girava e não saía, cansei. Foi a vez de meu primo tentar tirá-la enquanto eu vigiava, não é que identifiquei um homem de paletó vindo em direção ao carro, foi uma cena chapliniana, eu tentando assoviar e não conseguindo, ficando vermelho até gritar:--- Olha o dono! Mas, ele já estava em cima e pegou o braço do meu primo e, não queria largar, me aproximei e disse: --- Moço, larga o meu primo. Aí ele me pegou também e depois de saber onde meu primo morava nos levou lá. 
Minha Tia atendeu a porta, só então ele nos largou e explicou o ocorrido pra ela, que imediatamente puxou nossas orelhas e nos levou para dentro, pediu desculpas ao homem, anotou seu nome e telefone e disse-lhe que nós íamos ficar sem mesada por muito tempo e que iría pagar o prejuízo. 

No dia seguinte, a delegacia de Copacabana tinha muitos registros de furto de peças de carro, e depois que nossas mães foram lá para esclarecer e se responsabilizarem pelos prejuízos, nós, passamos muito tempo refletindo sobre o que fizemos. Sem cinema, futebol, praia e dinheiro pra doces e tudo mais.

04/06/2008

Assombrações na Casa Grande.



Passando mais uma temporada de férias na fazenda de parentes queridos, uma fazenda de plantação de cana-de-açúcar no interior de Alagoas, certo dia, acordei com uma sensação estranha, ao mesmo tempo em que me sentia animado, também sentia um pouco de medo, pois, meu tio ia passar o final de semana na casa de sua família, em Maceió, e eu, tinha quase 13 anos de idade e queria ficar na fazenda, mas, sozinho na Casa Grande? 

Apesar de ser uma casa bonita e acolhedora e de eu me sentir muito bem nela, em outra ocasião, em que não havia mais ninguém a não ser eu e outro Tio dormindo em um quarto com duas camas, ouvi claramente o som de passos na sala. Estava quase dormindo quando ouvi o rangido da porta do banheiro abrindo e fechando, o som de passos se aproximando e passando em frente a minha porta (a essa altura eu já estava literalmente batendo os dentes e tremendo de medo debaixo do lençol), os passos seguindo para o pequeno escritório ao lado, parando, abrindo e fechando a porta e arrastando a cadeira da escrivaninha para sentar. E todas as portas e janelas estavam trancadas. Quer dizer; por isso temia dormir sozinho na Casa Grande, mas tinha um plano: chamar uns amigos pra dormir na casa. 

Meu tio João, como sempre, saía muito cedo e no café da manhã regado à macaxeira e cuscus, fez a última chamada: -- Como é, vai ficar mesmo? Só volto pra Santa Maria na quarta-feira, mas seu tio Eduardo volta na segunda. Não tem medo de ficar sozinho? -- Não tio, sou cabra macho, vou ficar bem. Disse eu, já com sotaque e a valentia camuflando o receio. -– Olha o que você vai aprontar hein?! Não quero confusão aqui. Colocou suas coisas no carro e partiu. 

Era sábado, e o expediente de trabalho de meus amigos adolescentes, trabalhadores da fazenda, terminava ao meio dia, como ainda era cedo fui dar uma volta, subi em alguns cajueiros e enquanto eles ralavam eu fiquei de papo pro ar até a hora de encontrá-los e convidá-los para dormir na Casa Grande até segunda-feira, mas sabia que não podia convidar a turma inteira porque acabaríamos dando um enorme desfalque na despensa e então, quem eu encontrasse primeiro iria convidar e, no máximo quatro amigos para ficarmos no quarto com dois beliches e uma cama. Quando acabei de depenar dois cajueiros e esconder as castanhas para depois torrá-las, desci a ladeira em direção ao barracão e já avistei dois amigos indo tomar banho no rio, o Bil e o Dedé, todos cobertos com pó da cana queimada, dois irmãos cortadores de cana. Bil, o mais velho, vivia corrigindo o irmão aprontador e palhaço. Convidei-os e em coro perguntaram: E o dotô deixou? – Ele ainda não sabe, mas é claro que não vai se importar, disse eu, com cara de aprontador. Eles adoraram a idéia e fomos descendo pro rio e fazendo planos para a noitada. 
Chegando ao rio quem estava lá? O Zé do Zé Júlio e o Pomonha, dois craques de futebol, o Zé todo certinho e responsável, era pau pra toda obra, tanto cortava cana quanto fazia outros serviços e, o Pomonha também, fazia de tudo, mas, era considerado o vagabundo da fazenda, preguiçoso e malandro. Pronto, estava fechado, iríamos nos divertir muito, os planos eram: comer muito, jogar pif-paf (cartas) até a luz de motor desligar às 9 da noite, aí passávamos a contar estórias e dormir para acordar bem cedo para a vadiagem de domingo: celar os cavalos e burros e, alguns mesmo sem cela, só com manta e cabresto, e partir para a feira da Usina Sinimbú a 14 kilômetros da fazenda e voltar pelas terras do outro lado, próximas ao asfalto, a pista da BR 101. Mas, essas são outras estórias. 

À tarde ainda nos encontramos no campo de futebol e, antes que todos chegassem pedi aos quatro amigos que não dissessem aos outros que iríamos dormir na Casa Grande, porque eles não iriam se sentir bem, apenas marcamos com eles no dia seguinte às seis da manhã na cocheira para irmos à feira. Depois do jogo, tomamos banho de rio e, já estava anoitecendo quando nos despedimos. 
À noite todos chegaram com suas melhores roupas: camisa de botão, calça tergal e chinelo. Conversamos um pouco e fomos arrumar a mesa e esquentar a comida. Já tinha almoçado feijão com farinha e charque (carne seca) nas casas de pau-a-pique de alguns deles, junto à suas famílias, e eles só tinham costume de comer usando a colher ou as mãos. Forrei a mesa e coloquei as facas, garfos e guardanapos, mas não as colheres, quando eles se entreolharam e riram. Dedé fazia palhaçadas imitando um grã-fino abotoando a camisa, o Bil, apesar de quase banguela, sorria encantadoramente feito criança que recebe um presente, o Pomonha estava estirado com os pés na cadeira, palitando os dentes e rindo e, o Zé do Zé Júlio, que era meio gago (eu também, mas era ¼ de gago), dizia: -- Oxê, eueu sósósó sei cocococomê de cuié. , E o Bil retrucou: --- Oxênte, que cabra abestado e inginoranti. E eu me divertia com tudo.

Bom, depois de jantarmos fomos jogar cartas até o apagar da luz, então acendemos um lampião, cada um deitou numa rede e ficamos proseando, jogando conversa fora e, é claro que, histórias de assombração não faltaram; caipora, curupira, mula sem cabeça, alma penada e lobisomem. Dedé contou que há alguns anos, em toda lua cheia, um cabra que trabalhava na fazenda, se fantasiava de lobisomem, entrava em um barril e despencava de cima de uma ladeira se arrebentando lá em baixo no povoado. O maluco saía gritando e correndo atrás de todo mundo. Dizem que ele acabou levando uma cossa do povo e sumiu pra nunca mais voltar. Vê se pode? 

Já era perto da meia-noite quando fomos dormir no quarto do fundo da casa. Era noite de lua nova e não se enxergava nada lá fora, a não ser o vulto da mata fechada na encosta do morro que beirava a janela onde estávamos. Deitamos e conversamos um pouco até que um a um foi dormindo. O silêncio profundo tomou conta e quase adormecendo eu só ouvia o som dos grilos, dos sapos, do vento nas árvores e dos morcegos que moravam nas telhas à cima de nós, de repente, ouvi um som estranho, parecia um gemido, e em seguida um som de madeira arranhada. O som começou a ficar mais alto e percebi que era na madeira da janela. Abri os olhos, espantado, e cutuquei o Zé, que arregalou os olhos e cutucou o Pomonha, logo todos se entreolharam assustados e de repente os sons voltaram nos deixando desesperados. Era um arranhado na janela acompanhado de um gemido, um sussurro de uma voz visceral, sobrenatural, parecendo um grito distante de outro mundo: Aíiiiiiiiiiiiiiiii..., crcrcrcrcrcrcr..., Aíiiiiiiiiiiiiiiii..., crcrcrcrcrcrc...rrrrrrrr. Imediatamente todos se cobriram inteiramente com os lençóis só deixando os olhos de fora, e os sons estranhos continuavam como se chamassem por alguém, Aíiiiiii, rrrrrrrrr, Aíiiiiii, rrrrrrrr , o Dedé disse baixinho: --- não responde, não responde porque morre! Quem responder morre! Todos apavorados, não sabendo o que fazer e não podendo gritar senão morria. Começamos a sussurrar ao mesmo tempo um pro outro, o Zé, que era gago, começou a rezar um Pai Nosso em voz alta, sem gaguejar e a mil por hora. Ah! Ah! Ah! Enquanto isso a voz e a ranhura na janela continuavam de forma lenta, sistemática e aterrorizante, de repente pararam, silêncio, todos se calaram e ficaram ouvindo. Silêncio total, tensão no ar... De repente: Aíiiiiiiiiiiiiiii..., crcrcrcrcrcr... rrrrrrrrr, Aíiiiiiiiiiiiii, rrrrrrrr... A voz voltou e o susto foi tanto que todos deram um pulo e gritaram: --- Meu Deus do Céu. --- Ave Maria! --- Valei-me Nossa Senhora. --- Meu Padin Padi Ciço. Aí comecei a ficar invocado e disse em voz alta pro Bil, mas, pra assombração ouvir: --- Ô Bil pega o 38 aí nessa gaveta que eu vou pegar o rifle do Tio. Era mentira, não existia 38 e o rifle estava sem bala. Mas, a assombração não sabia. Ou será que sabia? Bom, na dúvida largamos o rifle e pegamos foices, peixeiras, faca e tesourão e saímos tremendo de medo para rodear a casa em fila indiana.

O primeiro da fila com um lampião e o último com uma vela, mas pra formar a fila ninguém queria segurar o lampião e a vela, todos queriam ir no meio, aí já estávamos rindo, chorando e a ponto de correr, mais o Pomonha, o mais velho, aceitou ir à frente e o Dedé atrás. Aí o Pomonha deu a voz de comando: --- Então vamos, mas atenção: Ninguém olha pra trás pra não ver a cara do Dedé segurando a vela no escuro, que o cabra morre de susto. Depois dos risos e nervosismos e de conseguirmos fazer silêncio, fomos rodear a casa nas pontas dos pés e com os braços levantados segurando as armas brancas, como samurais, prontos para o ataque. O auge da tensão foi quando chegamos à janela da assombração, a sensação do ar abafado e de que há qualquer folha que caísse no chão todos correriam. Mas ali não havia nada, nem vento nem viva ou morta alma, ninguém, era só a calçada entre a casa e a mata, mas de repente, um barulho estranho no mato e, o Dedé gritou: --- O que é aquilo minha gente? Eu só sei que ninguém se deu o trabalho de olhar pra ver a assombração e nem o Dedé com a vela, todos gritamos feito loucos e salve-se quem puder, saímos correndo ladeira abaixo e só paramos no barracão, na porta do Zé Titio, o administrador da fazenda. Dedé estava pálido e disse que viu uma sombra andando no mato.
Zé Titio pediu a dois filhos mais velhos que nos acompanhassem até a casa grande e dessem uma vistoriada na casa e nas imediações, e agora nós fomos cheios de moral com dois adultos, mas não encontramos viva alma nas redondezas. Mistério. Só conseguimos dormir de cansados, depois de horas achando que o gemido poderia voltar. 

Aquele acontecimento me deixou preocupado, já não era a primeira vez, e quem eu encontrava, falava do acontecido. O tempo passou, voltei pra Maceió e pro Rio. Um ano depois, nas férias de verão eu estava na fazenda de novo e, no final de uma pelada percebi que numa roda de amigos, dois estavam contando piadas ou alguma estória, pois todos estavam rindo, quando me aproximei, ouvi parte do que falavam e fiquei pasmado; a assombração da janela tinha sido um susto que três amigos nos deram, porque não tinham sido convidados para dormir na Casa Grande. O Bastião, o Pedro e o Ciço se fizeram de assombração. Eu, Bil Dedé, Pomonha e Zé saímos correndo atrás dos filhos da mãe que nos deram um susto arretado e só nos contaram um ano depois. 

À MEMÓRIA de todos esses grandes amigos.

A grande matada de aula para ver Pelé e a seleção de 70.



Era dia de treino da seleção brasileira, e que seleção, era em 1972 e eu tinha 12 anos de idade. Inventaram uma mini-copa do mundo, talvez porque a seleção de 70 era divinamente maravilhosa, não sei. O treino era na Gávea, no clube do Flamengo e, advinha; eu era sócio, apesar de ser tricolor doente. 
Pois então, o treino era à tarde, no meio do horário da escola – e agora, o que fazer para matar essa aula? Quando cheguei à escola, a turma que jogava com bola de meia estava aflita e já se reunia para discutir as estratégias: 1- fuga da escola, 2- Como entrar no Clube. Papo vai, papo vem, definimos um plano de fuga: no recreio, um de nós ficaria de olho no porteiro, outro de olho nos arredores e os demais iriam um a um subir um matagal, um barranco atrás da escola, e se esconder atrás de uma grande pedra lá em cima, e depois era só arrumar um jeito de pular um muro de três metros de altura e correr livres, ladeira abaixo ao encontro da seleção brasileira. Pronto, com tudo esquematizado fomos para as aulas, ansiosos pela hora da fuga. 

Em plena aula, um dos integrantes do esquadrão de fuga me jogou um papel amassado na cabeça e, antes que eu revidasse, ele me fez sinais para que eu lesse um recado no papel, que dizia: Esquecemos de fazer um plano para entrar no Clube, e agora? Aí me veio à cabeça uma idéia de eu entrar no Clube com minha carteira de sócio e repassá-la por baixo de outro portão a todos os seis do bando, ótimo, era isso mesmo. Escrevi a idéia, amassei o papel, fiz sinal para o amigo ler e esperei o momento propício do lançamento, pronto joguei, a informação e a vingança do papel na cabeça. 
Quando tocou o sinal do recreio todos saíram correndo para o encontro no canto da quadra, mas o inesperado aconteceu. Não é que o porteiro estava fazendo a corte para uma funcionária exatamente no local onde teríamos que subir no matagal?! E até estranhou quando um bando de moleques chegava derrapando e com cara de assustados. Todo mundo disfarçando fomos para o outro lado da quadra esperar eles saírem dali. Mas que nada, parecia que os dois iam ficar ali até o fim do recreio. O que fazer? Quando alguém teve a idéia de dizer a ele que a diretora o estava chamando, mas quem iria já que todos eram marcados como bagunceiros? -- Já sei! Disse o Serjão quando avistou o “Ponte” vindo na nossa direção. – Ô Ponte, tu vai fazer um favor pra mim! – O que é? Avisa o porteiro que a diretora ta chamando ele. –- Ih, avisa você! -– Ô cumpadi, qual é? Me faz esse favor que eu te protejo na escola e não te chamo mais de Ponte. Ele aceitou e deu tudo certo. O porteiro e a funcionária saíram. 

Então sentamos perto do matagal e fomos subindo, um a um. Lá em cima, o problema era descer uma ribanceira escorregadia até o muro que dava na rua, então fizemos uma escada viva dando as mãos e, os primeiros a chegar lá embaixo, seriam o apoio dos últimos a descer. Conclusão: a metade de cima se estabacou na metade de baixo e foi um Deus nos acuda, todos caindo um por cima do outro e tentando agarrar a terra e as plantas. Bem, conseguimos estabilizar a queda, mas os gritos chamaram a atenção da vizinhança e logo alguém da escola poderia aparecer, e foi o que aconteceu: quando o último menino pulava o muro, o porteiro colocou a cabeça pra fora do portão e gritou: Tem menino fugindo! Dois dos mais enfezados começaram a jogar pedra no homem, que logo sumiu, e nós também, corremos para o ponto de ônibus e fomos a caminho da seleção. 
Nessa época os estudantes pagavam passagem, com algumas exceções, nós. Éramos especialistas, entre outras coisas em trambicar, e foi o que aconteceu, trambique coletivo e correria gritando. 
Bom, chegamos ao portão do Clube do Flamengo e agora o problema era entrar. Expliquei a todos, em que portão deveriam ficar para que eu desse a carteira do clube, porém, todos tinham que ser espertos e ter sorte para que o porteiro não olhasse o retrato e acabasse barrando e confiscando minha carteira, por isso, quando entregava a carteira por debaixo do outro portão a um colega, corria para a portaria para de alguma forma tirar a atenção do porteiro. Foi hilário, revendo agora, pois, na hora foi um desespero de vai e vem, de falar alto e de adrenalina e, só deu certo porque tinha uma multidão para entrar e não tinham tempo de olhar bem os retratos. Pronto, estávamos dentro e muito perto de nossos ídolos. Todos a postos com cadernos na mão para pedir autógrafos e vamos nessa. Perto do campo é que reparamos que não deixavam ninguém ultrapassar a grade para falar com os jogadores, que vinham até a grade, mas os marmanjões estavam na frente e era impossível passar. E agora? 

Como quem não quer nada fomos dando a volta no campo até que encontramos lá do outro lado uma brecha entre o chão e a grade e para não chamar atenção encostamos uma placa de obra na grade e passamos para o campo andando discretamente rumo ao gol, sabe quem estava lá, apostando quem acertava a bola no travessão? Paulo César, Jairzinho e Rivelino. Fomos ao delírio. Pedimos autógrafos e colamos neles. Ué, mas cadê o Pelé? – Ô Paulo César, cadê o Pelé. -- Ele não veio. Óh, que decepção, mas tudo bem, estávamos felizes mesmo sem Pelé e sabendo que seríamos suspensos ou expulsos da escola e que levaríamos uma dura ou surra dos pais. Peguei duas semanas de suspensão e fiquei sem mesada. Ah! Ah!, Ah!. Grande abraço. Até a próxima.