04/06/2008

A grande matada de aula para ver Pelé e a seleção de 70.



Era dia de treino da seleção brasileira, e que seleção, era em 1972 e eu tinha 12 anos de idade. Inventaram uma mini-copa do mundo, talvez porque a seleção de 70 era divinamente maravilhosa, não sei. O treino era na Gávea, no clube do Flamengo e, advinha; eu era sócio, apesar de ser tricolor doente. 
Pois então, o treino era à tarde, no meio do horário da escola – e agora, o que fazer para matar essa aula? Quando cheguei à escola, a turma que jogava com bola de meia estava aflita e já se reunia para discutir as estratégias: 1- fuga da escola, 2- Como entrar no Clube. Papo vai, papo vem, definimos um plano de fuga: no recreio, um de nós ficaria de olho no porteiro, outro de olho nos arredores e os demais iriam um a um subir um matagal, um barranco atrás da escola, e se esconder atrás de uma grande pedra lá em cima, e depois era só arrumar um jeito de pular um muro de três metros de altura e correr livres, ladeira abaixo ao encontro da seleção brasileira. Pronto, com tudo esquematizado fomos para as aulas, ansiosos pela hora da fuga. 

Em plena aula, um dos integrantes do esquadrão de fuga me jogou um papel amassado na cabeça e, antes que eu revidasse, ele me fez sinais para que eu lesse um recado no papel, que dizia: Esquecemos de fazer um plano para entrar no Clube, e agora? Aí me veio à cabeça uma idéia de eu entrar no Clube com minha carteira de sócio e repassá-la por baixo de outro portão a todos os seis do bando, ótimo, era isso mesmo. Escrevi a idéia, amassei o papel, fiz sinal para o amigo ler e esperei o momento propício do lançamento, pronto joguei, a informação e a vingança do papel na cabeça. 
Quando tocou o sinal do recreio todos saíram correndo para o encontro no canto da quadra, mas o inesperado aconteceu. Não é que o porteiro estava fazendo a corte para uma funcionária exatamente no local onde teríamos que subir no matagal?! E até estranhou quando um bando de moleques chegava derrapando e com cara de assustados. Todo mundo disfarçando fomos para o outro lado da quadra esperar eles saírem dali. Mas que nada, parecia que os dois iam ficar ali até o fim do recreio. O que fazer? Quando alguém teve a idéia de dizer a ele que a diretora o estava chamando, mas quem iria já que todos eram marcados como bagunceiros? -- Já sei! Disse o Serjão quando avistou o “Ponte” vindo na nossa direção. – Ô Ponte, tu vai fazer um favor pra mim! – O que é? Avisa o porteiro que a diretora ta chamando ele. –- Ih, avisa você! -– Ô cumpadi, qual é? Me faz esse favor que eu te protejo na escola e não te chamo mais de Ponte. Ele aceitou e deu tudo certo. O porteiro e a funcionária saíram. 

Então sentamos perto do matagal e fomos subindo, um a um. Lá em cima, o problema era descer uma ribanceira escorregadia até o muro que dava na rua, então fizemos uma escada viva dando as mãos e, os primeiros a chegar lá embaixo, seriam o apoio dos últimos a descer. Conclusão: a metade de cima se estabacou na metade de baixo e foi um Deus nos acuda, todos caindo um por cima do outro e tentando agarrar a terra e as plantas. Bem, conseguimos estabilizar a queda, mas os gritos chamaram a atenção da vizinhança e logo alguém da escola poderia aparecer, e foi o que aconteceu: quando o último menino pulava o muro, o porteiro colocou a cabeça pra fora do portão e gritou: Tem menino fugindo! Dois dos mais enfezados começaram a jogar pedra no homem, que logo sumiu, e nós também, corremos para o ponto de ônibus e fomos a caminho da seleção. 
Nessa época os estudantes pagavam passagem, com algumas exceções, nós. Éramos especialistas, entre outras coisas em trambicar, e foi o que aconteceu, trambique coletivo e correria gritando. 
Bom, chegamos ao portão do Clube do Flamengo e agora o problema era entrar. Expliquei a todos, em que portão deveriam ficar para que eu desse a carteira do clube, porém, todos tinham que ser espertos e ter sorte para que o porteiro não olhasse o retrato e acabasse barrando e confiscando minha carteira, por isso, quando entregava a carteira por debaixo do outro portão a um colega, corria para a portaria para de alguma forma tirar a atenção do porteiro. Foi hilário, revendo agora, pois, na hora foi um desespero de vai e vem, de falar alto e de adrenalina e, só deu certo porque tinha uma multidão para entrar e não tinham tempo de olhar bem os retratos. Pronto, estávamos dentro e muito perto de nossos ídolos. Todos a postos com cadernos na mão para pedir autógrafos e vamos nessa. Perto do campo é que reparamos que não deixavam ninguém ultrapassar a grade para falar com os jogadores, que vinham até a grade, mas os marmanjões estavam na frente e era impossível passar. E agora? 

Como quem não quer nada fomos dando a volta no campo até que encontramos lá do outro lado uma brecha entre o chão e a grade e para não chamar atenção encostamos uma placa de obra na grade e passamos para o campo andando discretamente rumo ao gol, sabe quem estava lá, apostando quem acertava a bola no travessão? Paulo César, Jairzinho e Rivelino. Fomos ao delírio. Pedimos autógrafos e colamos neles. Ué, mas cadê o Pelé? – Ô Paulo César, cadê o Pelé. -- Ele não veio. Óh, que decepção, mas tudo bem, estávamos felizes mesmo sem Pelé e sabendo que seríamos suspensos ou expulsos da escola e que levaríamos uma dura ou surra dos pais. Peguei duas semanas de suspensão e fiquei sem mesada. Ah! Ah!, Ah!. Grande abraço. Até a próxima.

Um comentário:

Anônimo disse...

Muito bom, parabéns! Me estimulou para que eu lembre e escreva uma ou outra aventura que passei.