10/07/2008

Mistério em Copacabana


 Teve uma época que pegou uma moda entre meninos pré-adolescentes e adolescentes, de fazer coleção de símbolos de carros, qualquer objeto de um carro podia fazer parte da coleção, menos o carro dos pais e dos pais de amigos, e com um detalhe, quanto mais novos os carros mais importância tinha a peça, mais valor agregado, de perigo, de rebeldia sem causa. E decorava um quarto inteiro; calotas, frisos, símbolos do caput, brucutu (aquele que expira água no vidro), valia tudo e havia até mercado paralelo de troca, na rua, no turno da manhã ou da tarde, adaptável a agenda dos “colecionadores” infanto-juvenis. Ou delinqüentes? 

Pois bem, nessa época a família de uma Tia estava morando em Copa, e um primo da minha idade, me chamou para passar o final de semana na casa dele. Achei ótimo, uniria o útil ao agradável, seria divertido e meu primo podia não só me ajudar a explorar o novo mercado promissor de símbolos para minha coleção, como iniciar a dele. 

A moda acabou rápido, porque os pais acabaram vendo que quase nada era de ferro-velho. Mas antes disso, minha turma de rua deu um enorme desfalque no bairro do Jardim Botânico e Humaitá e, eu e meu primo em todo um quarteirão de Copacabana, quando saímos portando uma bolsa, cada um, e enquanto um de nós, encostava no carro e ia tirando as peças sem chamar atenção, o outro ficava vigiando para identificar o possível dono, e dar um toque sobre suspeitos de alarme. Tudo andava bem, já tínhamos uma boa quantidade de símbolos para complementar minha coleção e iniciar a de meu primo, mas de repente, aparece em nossa frente um tremendo Mercedes com um símbolo que faltava em minha coleção, aquela estrela. Fiquei encostado na frente da estrela tentando arrancá-la, mas, estava difícil, ela girava e não saía, cansei. Foi a vez de meu primo tentar tirá-la enquanto eu vigiava, não é que identifiquei um homem de paletó vindo em direção ao carro, foi uma cena chapliniana, eu tentando assoviar e não conseguindo, ficando vermelho até gritar:--- Olha o dono! Mas, ele já estava em cima e pegou o braço do meu primo e, não queria largar, me aproximei e disse: --- Moço, larga o meu primo. Aí ele me pegou também e depois de saber onde meu primo morava nos levou lá. 
Minha Tia atendeu a porta, só então ele nos largou e explicou o ocorrido pra ela, que imediatamente puxou nossas orelhas e nos levou para dentro, pediu desculpas ao homem, anotou seu nome e telefone e disse-lhe que nós íamos ficar sem mesada por muito tempo e que iría pagar o prejuízo. 

No dia seguinte, a delegacia de Copacabana tinha muitos registros de furto de peças de carro, e depois que nossas mães foram lá para esclarecer e se responsabilizarem pelos prejuízos, nós, passamos muito tempo refletindo sobre o que fizemos. Sem cinema, futebol, praia e dinheiro pra doces e tudo mais.

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