10/07/2008

Heloísa e o Bando do Balança.


Acordei feliz e cantando, e não era à toa, não tinha nem uma semana que havia começado um namoro com uma das meninas mais belas do colégio, a Heloísa, gente boíssima, linda e cheirosa, e que fazia e talvez ainda faça parte do imaginário da maioria dos meninos da escola, como eu, hoje marmanjões. Eu tinha 14 anos e estudava em escola pública, o Colégio Camilo Castelo Branco, no bairro do Horto ao lado do Jardim Botânico no Rio de Janeiro. 
  No caminho para a escola eu estampava um sorriso de orelha a orelha, parecia flutuar. Quando entrei na sala a turma inteira gritou em coro: --- Ta namorando! Ta namorando! Ta namorando! Nosso namoro foi descoberto, viramos tomates de tanta vergonha. Nós tínhamos um acordo, não namorar na escola, senão iriam encher o nosso saco, os mais novos dando rizinhos e fofocando e os coroas dizendo: --- Ah, que lindinhos, que fofinhos. Só sei que passei por duas ou três aulas concentradíssimo, desenhando corações e escrevendo poesias, como poderia imaginar que logo toda aquela alegria se transformaria em tensão. 
No recreio, estava jogando futebol com bola de meia com alguns colegas e o jogo estava quente, não me recordo se ganhamos ou perdemos, mas me lembro do sol forte e da poeira da terra batida e do sentimento aguerrido de querer partir pro gol, da marcação acirrada dos oponentes, que eram de outra turma. Bem, encerrada a partida e o recreio com o sinal da escola, rolou uma encrenca, um dos meninos do time adversário se aproximou de mim e perguntou: --- Não é você que está namorando a Heloísa da turma 205? --- Sim, por quê? Perguntei. --- Porque eu quero dar uns amassos nela, ela é muita boa. Pronto, foi o suficiente, não agüentei e dei uma peitada nele, quer dizer, na barriga dele, porque ele era muito alto, mas, muito magro. Ele levantou o braço pra me bater, mas, eu peguei o braço dele e o empurrei, ele caiu, e quando levantou veio brigar de novo e outra vez a cena se repetiu; ta lá um corpo estendido no chão. Quando lá vinha ele de novo e agora junto com uns três amigos, o inspetor chegou e apartou a briga ameaçando nos levar pra diretora. Ele foi embora gritando que ia me pegar e dar porrada na Heloísa. 
  Voltei às aulas, preocupado, pois, o cara era da temida Turma do Balança, um bando de 20 a 30 garotos barras-pesadas de um condomínio próximo a escola, que azucrinavam a região e a todos que ficassem no caminho. Mas, parecia que o encanto por Heloísa era mais forte do que o temor pelo bando, pois, logo, esqueci da briga e continuei a estudar, quer dizer, a desenhar poesias e escrever corações, opa. Na saída da escola ainda estava meio nas nuvens, tanto que quando percebi que restavam apenas eu e um colega na sala, e que todo mundo já tinha ido embora, me veio à cabeça, a imagem do bando do Balança, olhei pra o Marcelo e perguntei: --- Vai pra Botafogo? --- Vou e você? --- Vou contigo, mas tenho que lhe contar uma coisa. Disse eu. No caminho da saída contei-lhe toda a história da briga e que o garoto tinha nos ameaçado, mas que ele não se preocupasse que não ia acontecer nada, pois, quem falava muito fazia pouco. --- Ih, andar contigo agora é perigoso, né? Abre o olho, e agora Arnaldo? --- Agora não vai acontecer nada, é muito cedo, ele vai querer me pegar amanhã, depois que chamar a turma. Fica tranqüilo que a gente vai olhando de longe. O Marcelo também era de paz, com a diferença que não era um ímã de encrencas e malas, nunca, em anos de convivência o vi numa briga. 

  Chegando ao portão vimos que quase todos os estudantes já tinham ido embora, então nos apressamos em atravessar a rua e ir pro ponto de ônibus a uns cem metros. No meio da rua alguém me jogou um resto de manga chupada na perna, já me virei xingando a mãe, quando vimos, havia uns 20 garotos encostados na parede e um deles era o tal da briga, petrificamos, baixamos a bola, engasgamos e disfarçamos em direção ao ponto como se nada tivesse acontecido. Aí o Marcelo sussurou: --- Lá vem a galera em nossa direção. E agora? --- Ó, se eles nos juntarem, corremos para a padaria e pedimos ajuda de alguns adultos. --- Olha pra padaria! Só tem duas velhinhas. --- Então podemos entrar na garagem da Globo, mas sairmos correndo na área deles é suicídio.

Em segundos estávamos cercados e um deles veio tirar satisfação. --- Agora eu quero ver, quem é o filho da puta aqui? Quem é, quem é? --- Veja Bem! Eu disse, quase susurrando. --- Só é filho da puta quem se sente filho da puta. Tentando amenizar e sem dar o braço a torcer. Aí o garoto que brigou comigo na escola entrou na roda e me encarou: --- Quero ver cair dentro agora? --- Mas, você queria bater numa garota?! Disse eu. Instintivamente aproveitei pra convencer o bando dele que ele é quem estava errado, evidenciando a sua ameaça sem causa a uma menina de 14 anos e que se ele quisesse poderíamos acertar as diferenças ali, mas sem covardia, só eu e ele. Se sentindo encurralado o cara começou a me xingar, rir amarelo e a sacanear um dos amigos dele, um saco de pancada, como que para tirar a atenção. Quando o que me jogou a manga parece que sentiu o constrangimento do amigo e saiu andando em direção à padaria e dizendo pra eu daqui pra frente tomar cuidado na área deles, e que se eu vacilasse ia levar uma surra, e todos o acompanharam, azucrinando e dispersando e atravessaram a rua, enquanto isso, Eu e Marcelo fomos andando para o ponto seguinte, e só nos sentimos aliviados quando fizemos a curva, e já não éramos vistos. Esperamos o ônibus e nada, mas ia passando o “quinhentão”, apelido do ônibus que fazia um trajeto curto, mas que não servia pra gente, parou na nossa frente. E quem estava nele? Todo o bando do Balança gritando e batucando, quando o ônibus partiu, esse maluco aqui fez sinais obscenos pra galera,  pensando que eles não poderiam mais nos atingir. Imagina o que aconteceu? Eles fizeram o motorista parar e abrir a porta do ônibus, lá vinha a galera toda que nem feras pra cima da gente, quem nos salvou foram três garis que imploramos para que nos protegessem, aí nos cercaram e o pau comeu, porque eles eram muitos, eu era ateu, mas, assim mesmo Deus mandou o nosso ônibus, no qual entramos aos trancos e barrancos quase sem camisa e descabelados, e ainda acertei um chute, tipo coice em um que pegou minha perna. Cacete, hein?!
No dia seguinte uma comissão de pais pedia segurança da PM na porta da escola. Heloísa e eu tivemos que namorar e andar escondidos durante semanas, não ir às festas do Piraquê no domingo à tarde e, viver como perseguidos pelos cantos escuros de dois Bairros. Romance e adrenalina.

Mistério em Copacabana


 Teve uma época que pegou uma moda entre meninos pré-adolescentes e adolescentes, de fazer coleção de símbolos de carros, qualquer objeto de um carro podia fazer parte da coleção, menos o carro dos pais e dos pais de amigos, e com um detalhe, quanto mais novos os carros mais importância tinha a peça, mais valor agregado, de perigo, de rebeldia sem causa. E decorava um quarto inteiro; calotas, frisos, símbolos do caput, brucutu (aquele que expira água no vidro), valia tudo e havia até mercado paralelo de troca, na rua, no turno da manhã ou da tarde, adaptável a agenda dos “colecionadores” infanto-juvenis. Ou delinqüentes? 

Pois bem, nessa época a família de uma Tia estava morando em Copa, e um primo da minha idade, me chamou para passar o final de semana na casa dele. Achei ótimo, uniria o útil ao agradável, seria divertido e meu primo podia não só me ajudar a explorar o novo mercado promissor de símbolos para minha coleção, como iniciar a dele. 

A moda acabou rápido, porque os pais acabaram vendo que quase nada era de ferro-velho. Mas antes disso, minha turma de rua deu um enorme desfalque no bairro do Jardim Botânico e Humaitá e, eu e meu primo em todo um quarteirão de Copacabana, quando saímos portando uma bolsa, cada um, e enquanto um de nós, encostava no carro e ia tirando as peças sem chamar atenção, o outro ficava vigiando para identificar o possível dono, e dar um toque sobre suspeitos de alarme. Tudo andava bem, já tínhamos uma boa quantidade de símbolos para complementar minha coleção e iniciar a de meu primo, mas de repente, aparece em nossa frente um tremendo Mercedes com um símbolo que faltava em minha coleção, aquela estrela. Fiquei encostado na frente da estrela tentando arrancá-la, mas, estava difícil, ela girava e não saía, cansei. Foi a vez de meu primo tentar tirá-la enquanto eu vigiava, não é que identifiquei um homem de paletó vindo em direção ao carro, foi uma cena chapliniana, eu tentando assoviar e não conseguindo, ficando vermelho até gritar:--- Olha o dono! Mas, ele já estava em cima e pegou o braço do meu primo e, não queria largar, me aproximei e disse: --- Moço, larga o meu primo. Aí ele me pegou também e depois de saber onde meu primo morava nos levou lá. 
Minha Tia atendeu a porta, só então ele nos largou e explicou o ocorrido pra ela, que imediatamente puxou nossas orelhas e nos levou para dentro, pediu desculpas ao homem, anotou seu nome e telefone e disse-lhe que nós íamos ficar sem mesada por muito tempo e que iría pagar o prejuízo. 

No dia seguinte, a delegacia de Copacabana tinha muitos registros de furto de peças de carro, e depois que nossas mães foram lá para esclarecer e se responsabilizarem pelos prejuízos, nós, passamos muito tempo refletindo sobre o que fizemos. Sem cinema, futebol, praia e dinheiro pra doces e tudo mais.