04/06/2008

Assombrações na Casa Grande.



Passando mais uma temporada de férias na fazenda de parentes queridos, uma fazenda de plantação de cana-de-açúcar no interior de Alagoas, certo dia, acordei com uma sensação estranha, ao mesmo tempo em que me sentia animado, também sentia um pouco de medo, pois, meu tio ia passar o final de semana na casa de sua família, em Maceió, e eu, tinha quase 13 anos de idade e queria ficar na fazenda, mas, sozinho na Casa Grande? 

Apesar de ser uma casa bonita e acolhedora e de eu me sentir muito bem nela, em outra ocasião, em que não havia mais ninguém a não ser eu e outro Tio dormindo em um quarto com duas camas, ouvi claramente o som de passos na sala. Estava quase dormindo quando ouvi o rangido da porta do banheiro abrindo e fechando, o som de passos se aproximando e passando em frente a minha porta (a essa altura eu já estava literalmente batendo os dentes e tremendo de medo debaixo do lençol), os passos seguindo para o pequeno escritório ao lado, parando, abrindo e fechando a porta e arrastando a cadeira da escrivaninha para sentar. E todas as portas e janelas estavam trancadas. Quer dizer; por isso temia dormir sozinho na Casa Grande, mas tinha um plano: chamar uns amigos pra dormir na casa. 

Meu tio João, como sempre, saía muito cedo e no café da manhã regado à macaxeira e cuscus, fez a última chamada: -- Como é, vai ficar mesmo? Só volto pra Santa Maria na quarta-feira, mas seu tio Eduardo volta na segunda. Não tem medo de ficar sozinho? -- Não tio, sou cabra macho, vou ficar bem. Disse eu, já com sotaque e a valentia camuflando o receio. -– Olha o que você vai aprontar hein?! Não quero confusão aqui. Colocou suas coisas no carro e partiu. 

Era sábado, e o expediente de trabalho de meus amigos adolescentes, trabalhadores da fazenda, terminava ao meio dia, como ainda era cedo fui dar uma volta, subi em alguns cajueiros e enquanto eles ralavam eu fiquei de papo pro ar até a hora de encontrá-los e convidá-los para dormir na Casa Grande até segunda-feira, mas sabia que não podia convidar a turma inteira porque acabaríamos dando um enorme desfalque na despensa e então, quem eu encontrasse primeiro iria convidar e, no máximo quatro amigos para ficarmos no quarto com dois beliches e uma cama. Quando acabei de depenar dois cajueiros e esconder as castanhas para depois torrá-las, desci a ladeira em direção ao barracão e já avistei dois amigos indo tomar banho no rio, o Bil e o Dedé, todos cobertos com pó da cana queimada, dois irmãos cortadores de cana. Bil, o mais velho, vivia corrigindo o irmão aprontador e palhaço. Convidei-os e em coro perguntaram: E o dotô deixou? – Ele ainda não sabe, mas é claro que não vai se importar, disse eu, com cara de aprontador. Eles adoraram a idéia e fomos descendo pro rio e fazendo planos para a noitada. 
Chegando ao rio quem estava lá? O Zé do Zé Júlio e o Pomonha, dois craques de futebol, o Zé todo certinho e responsável, era pau pra toda obra, tanto cortava cana quanto fazia outros serviços e, o Pomonha também, fazia de tudo, mas, era considerado o vagabundo da fazenda, preguiçoso e malandro. Pronto, estava fechado, iríamos nos divertir muito, os planos eram: comer muito, jogar pif-paf (cartas) até a luz de motor desligar às 9 da noite, aí passávamos a contar estórias e dormir para acordar bem cedo para a vadiagem de domingo: celar os cavalos e burros e, alguns mesmo sem cela, só com manta e cabresto, e partir para a feira da Usina Sinimbú a 14 kilômetros da fazenda e voltar pelas terras do outro lado, próximas ao asfalto, a pista da BR 101. Mas, essas são outras estórias. 

À tarde ainda nos encontramos no campo de futebol e, antes que todos chegassem pedi aos quatro amigos que não dissessem aos outros que iríamos dormir na Casa Grande, porque eles não iriam se sentir bem, apenas marcamos com eles no dia seguinte às seis da manhã na cocheira para irmos à feira. Depois do jogo, tomamos banho de rio e, já estava anoitecendo quando nos despedimos. 
À noite todos chegaram com suas melhores roupas: camisa de botão, calça tergal e chinelo. Conversamos um pouco e fomos arrumar a mesa e esquentar a comida. Já tinha almoçado feijão com farinha e charque (carne seca) nas casas de pau-a-pique de alguns deles, junto à suas famílias, e eles só tinham costume de comer usando a colher ou as mãos. Forrei a mesa e coloquei as facas, garfos e guardanapos, mas não as colheres, quando eles se entreolharam e riram. Dedé fazia palhaçadas imitando um grã-fino abotoando a camisa, o Bil, apesar de quase banguela, sorria encantadoramente feito criança que recebe um presente, o Pomonha estava estirado com os pés na cadeira, palitando os dentes e rindo e, o Zé do Zé Júlio, que era meio gago (eu também, mas era ¼ de gago), dizia: -- Oxê, eueu sósósó sei cocococomê de cuié. , E o Bil retrucou: --- Oxênte, que cabra abestado e inginoranti. E eu me divertia com tudo.

Bom, depois de jantarmos fomos jogar cartas até o apagar da luz, então acendemos um lampião, cada um deitou numa rede e ficamos proseando, jogando conversa fora e, é claro que, histórias de assombração não faltaram; caipora, curupira, mula sem cabeça, alma penada e lobisomem. Dedé contou que há alguns anos, em toda lua cheia, um cabra que trabalhava na fazenda, se fantasiava de lobisomem, entrava em um barril e despencava de cima de uma ladeira se arrebentando lá em baixo no povoado. O maluco saía gritando e correndo atrás de todo mundo. Dizem que ele acabou levando uma cossa do povo e sumiu pra nunca mais voltar. Vê se pode? 

Já era perto da meia-noite quando fomos dormir no quarto do fundo da casa. Era noite de lua nova e não se enxergava nada lá fora, a não ser o vulto da mata fechada na encosta do morro que beirava a janela onde estávamos. Deitamos e conversamos um pouco até que um a um foi dormindo. O silêncio profundo tomou conta e quase adormecendo eu só ouvia o som dos grilos, dos sapos, do vento nas árvores e dos morcegos que moravam nas telhas à cima de nós, de repente, ouvi um som estranho, parecia um gemido, e em seguida um som de madeira arranhada. O som começou a ficar mais alto e percebi que era na madeira da janela. Abri os olhos, espantado, e cutuquei o Zé, que arregalou os olhos e cutucou o Pomonha, logo todos se entreolharam assustados e de repente os sons voltaram nos deixando desesperados. Era um arranhado na janela acompanhado de um gemido, um sussurro de uma voz visceral, sobrenatural, parecendo um grito distante de outro mundo: Aíiiiiiiiiiiiiiiii..., crcrcrcrcrcrcr..., Aíiiiiiiiiiiiiiiii..., crcrcrcrcrcrc...rrrrrrrr. Imediatamente todos se cobriram inteiramente com os lençóis só deixando os olhos de fora, e os sons estranhos continuavam como se chamassem por alguém, Aíiiiiii, rrrrrrrrr, Aíiiiiii, rrrrrrrr , o Dedé disse baixinho: --- não responde, não responde porque morre! Quem responder morre! Todos apavorados, não sabendo o que fazer e não podendo gritar senão morria. Começamos a sussurrar ao mesmo tempo um pro outro, o Zé, que era gago, começou a rezar um Pai Nosso em voz alta, sem gaguejar e a mil por hora. Ah! Ah! Ah! Enquanto isso a voz e a ranhura na janela continuavam de forma lenta, sistemática e aterrorizante, de repente pararam, silêncio, todos se calaram e ficaram ouvindo. Silêncio total, tensão no ar... De repente: Aíiiiiiiiiiiiiiii..., crcrcrcrcrcr... rrrrrrrrr, Aíiiiiiiiiiiiii, rrrrrrrr... A voz voltou e o susto foi tanto que todos deram um pulo e gritaram: --- Meu Deus do Céu. --- Ave Maria! --- Valei-me Nossa Senhora. --- Meu Padin Padi Ciço. Aí comecei a ficar invocado e disse em voz alta pro Bil, mas, pra assombração ouvir: --- Ô Bil pega o 38 aí nessa gaveta que eu vou pegar o rifle do Tio. Era mentira, não existia 38 e o rifle estava sem bala. Mas, a assombração não sabia. Ou será que sabia? Bom, na dúvida largamos o rifle e pegamos foices, peixeiras, faca e tesourão e saímos tremendo de medo para rodear a casa em fila indiana.

O primeiro da fila com um lampião e o último com uma vela, mas pra formar a fila ninguém queria segurar o lampião e a vela, todos queriam ir no meio, aí já estávamos rindo, chorando e a ponto de correr, mais o Pomonha, o mais velho, aceitou ir à frente e o Dedé atrás. Aí o Pomonha deu a voz de comando: --- Então vamos, mas atenção: Ninguém olha pra trás pra não ver a cara do Dedé segurando a vela no escuro, que o cabra morre de susto. Depois dos risos e nervosismos e de conseguirmos fazer silêncio, fomos rodear a casa nas pontas dos pés e com os braços levantados segurando as armas brancas, como samurais, prontos para o ataque. O auge da tensão foi quando chegamos à janela da assombração, a sensação do ar abafado e de que há qualquer folha que caísse no chão todos correriam. Mas ali não havia nada, nem vento nem viva ou morta alma, ninguém, era só a calçada entre a casa e a mata, mas de repente, um barulho estranho no mato e, o Dedé gritou: --- O que é aquilo minha gente? Eu só sei que ninguém se deu o trabalho de olhar pra ver a assombração e nem o Dedé com a vela, todos gritamos feito loucos e salve-se quem puder, saímos correndo ladeira abaixo e só paramos no barracão, na porta do Zé Titio, o administrador da fazenda. Dedé estava pálido e disse que viu uma sombra andando no mato.
Zé Titio pediu a dois filhos mais velhos que nos acompanhassem até a casa grande e dessem uma vistoriada na casa e nas imediações, e agora nós fomos cheios de moral com dois adultos, mas não encontramos viva alma nas redondezas. Mistério. Só conseguimos dormir de cansados, depois de horas achando que o gemido poderia voltar. 

Aquele acontecimento me deixou preocupado, já não era a primeira vez, e quem eu encontrava, falava do acontecido. O tempo passou, voltei pra Maceió e pro Rio. Um ano depois, nas férias de verão eu estava na fazenda de novo e, no final de uma pelada percebi que numa roda de amigos, dois estavam contando piadas ou alguma estória, pois todos estavam rindo, quando me aproximei, ouvi parte do que falavam e fiquei pasmado; a assombração da janela tinha sido um susto que três amigos nos deram, porque não tinham sido convidados para dormir na Casa Grande. O Bastião, o Pedro e o Ciço se fizeram de assombração. Eu, Bil Dedé, Pomonha e Zé saímos correndo atrás dos filhos da mãe que nos deram um susto arretado e só nos contaram um ano depois. 

À MEMÓRIA de todos esses grandes amigos.

A grande matada de aula para ver Pelé e a seleção de 70.



Era dia de treino da seleção brasileira, e que seleção, era em 1972 e eu tinha 12 anos de idade. Inventaram uma mini-copa do mundo, talvez porque a seleção de 70 era divinamente maravilhosa, não sei. O treino era na Gávea, no clube do Flamengo e, advinha; eu era sócio, apesar de ser tricolor doente. 
Pois então, o treino era à tarde, no meio do horário da escola – e agora, o que fazer para matar essa aula? Quando cheguei à escola, a turma que jogava com bola de meia estava aflita e já se reunia para discutir as estratégias: 1- fuga da escola, 2- Como entrar no Clube. Papo vai, papo vem, definimos um plano de fuga: no recreio, um de nós ficaria de olho no porteiro, outro de olho nos arredores e os demais iriam um a um subir um matagal, um barranco atrás da escola, e se esconder atrás de uma grande pedra lá em cima, e depois era só arrumar um jeito de pular um muro de três metros de altura e correr livres, ladeira abaixo ao encontro da seleção brasileira. Pronto, com tudo esquematizado fomos para as aulas, ansiosos pela hora da fuga. 

Em plena aula, um dos integrantes do esquadrão de fuga me jogou um papel amassado na cabeça e, antes que eu revidasse, ele me fez sinais para que eu lesse um recado no papel, que dizia: Esquecemos de fazer um plano para entrar no Clube, e agora? Aí me veio à cabeça uma idéia de eu entrar no Clube com minha carteira de sócio e repassá-la por baixo de outro portão a todos os seis do bando, ótimo, era isso mesmo. Escrevi a idéia, amassei o papel, fiz sinal para o amigo ler e esperei o momento propício do lançamento, pronto joguei, a informação e a vingança do papel na cabeça. 
Quando tocou o sinal do recreio todos saíram correndo para o encontro no canto da quadra, mas o inesperado aconteceu. Não é que o porteiro estava fazendo a corte para uma funcionária exatamente no local onde teríamos que subir no matagal?! E até estranhou quando um bando de moleques chegava derrapando e com cara de assustados. Todo mundo disfarçando fomos para o outro lado da quadra esperar eles saírem dali. Mas que nada, parecia que os dois iam ficar ali até o fim do recreio. O que fazer? Quando alguém teve a idéia de dizer a ele que a diretora o estava chamando, mas quem iria já que todos eram marcados como bagunceiros? -- Já sei! Disse o Serjão quando avistou o “Ponte” vindo na nossa direção. – Ô Ponte, tu vai fazer um favor pra mim! – O que é? Avisa o porteiro que a diretora ta chamando ele. –- Ih, avisa você! -– Ô cumpadi, qual é? Me faz esse favor que eu te protejo na escola e não te chamo mais de Ponte. Ele aceitou e deu tudo certo. O porteiro e a funcionária saíram. 

Então sentamos perto do matagal e fomos subindo, um a um. Lá em cima, o problema era descer uma ribanceira escorregadia até o muro que dava na rua, então fizemos uma escada viva dando as mãos e, os primeiros a chegar lá embaixo, seriam o apoio dos últimos a descer. Conclusão: a metade de cima se estabacou na metade de baixo e foi um Deus nos acuda, todos caindo um por cima do outro e tentando agarrar a terra e as plantas. Bem, conseguimos estabilizar a queda, mas os gritos chamaram a atenção da vizinhança e logo alguém da escola poderia aparecer, e foi o que aconteceu: quando o último menino pulava o muro, o porteiro colocou a cabeça pra fora do portão e gritou: Tem menino fugindo! Dois dos mais enfezados começaram a jogar pedra no homem, que logo sumiu, e nós também, corremos para o ponto de ônibus e fomos a caminho da seleção. 
Nessa época os estudantes pagavam passagem, com algumas exceções, nós. Éramos especialistas, entre outras coisas em trambicar, e foi o que aconteceu, trambique coletivo e correria gritando. 
Bom, chegamos ao portão do Clube do Flamengo e agora o problema era entrar. Expliquei a todos, em que portão deveriam ficar para que eu desse a carteira do clube, porém, todos tinham que ser espertos e ter sorte para que o porteiro não olhasse o retrato e acabasse barrando e confiscando minha carteira, por isso, quando entregava a carteira por debaixo do outro portão a um colega, corria para a portaria para de alguma forma tirar a atenção do porteiro. Foi hilário, revendo agora, pois, na hora foi um desespero de vai e vem, de falar alto e de adrenalina e, só deu certo porque tinha uma multidão para entrar e não tinham tempo de olhar bem os retratos. Pronto, estávamos dentro e muito perto de nossos ídolos. Todos a postos com cadernos na mão para pedir autógrafos e vamos nessa. Perto do campo é que reparamos que não deixavam ninguém ultrapassar a grade para falar com os jogadores, que vinham até a grade, mas os marmanjões estavam na frente e era impossível passar. E agora? 

Como quem não quer nada fomos dando a volta no campo até que encontramos lá do outro lado uma brecha entre o chão e a grade e para não chamar atenção encostamos uma placa de obra na grade e passamos para o campo andando discretamente rumo ao gol, sabe quem estava lá, apostando quem acertava a bola no travessão? Paulo César, Jairzinho e Rivelino. Fomos ao delírio. Pedimos autógrafos e colamos neles. Ué, mas cadê o Pelé? – Ô Paulo César, cadê o Pelé. -- Ele não veio. Óh, que decepção, mas tudo bem, estávamos felizes mesmo sem Pelé e sabendo que seríamos suspensos ou expulsos da escola e que levaríamos uma dura ou surra dos pais. Peguei duas semanas de suspensão e fiquei sem mesada. Ah! Ah!, Ah!. Grande abraço. Até a próxima.