Passando mais uma temporada de férias na fazenda de parentes queridos, uma fazenda de plantação de cana-de-açúcar no interior de Alagoas, certo dia, acordei com uma sensação estranha, ao mesmo tempo em que me sentia animado, também sentia um pouco de medo, pois, meu tio ia passar o final de semana na casa de sua família, em Maceió, e eu, tinha quase 13 anos de idade e queria ficar na fazenda, mas, sozinho na Casa Grande?
Apesar de ser uma casa bonita e acolhedora e de eu me sentir muito bem nela, em outra ocasião, em que não havia mais ninguém a não ser eu e outro Tio dormindo em um quarto com duas camas, ouvi claramente o som de passos na sala. Estava quase dormindo quando ouvi o rangido da porta do banheiro abrindo e fechando, o som de passos se aproximando e passando em frente a minha porta (a essa altura eu já estava literalmente batendo os dentes e tremendo de medo debaixo do lençol), os passos seguindo para o pequeno escritório ao lado, parando, abrindo e fechando a porta e arrastando a cadeira da escrivaninha para sentar. E todas as portas e janelas estavam trancadas. Quer dizer; por isso temia dormir sozinho na Casa Grande, mas tinha um plano: chamar uns amigos pra dormir na casa.
Meu tio João, como sempre, saía muito cedo e no café da manhã regado à macaxeira e cuscus, fez a última chamada: -- Como é, vai ficar mesmo? Só volto pra Santa Maria na quarta-feira, mas seu tio Eduardo volta na segunda. Não tem medo de ficar sozinho? -- Não tio, sou cabra macho, vou ficar bem. Disse eu, já com sotaque e a valentia camuflando o receio. -– Olha o que você vai aprontar hein?! Não quero confusão aqui. Colocou suas coisas no carro e partiu.
Era sábado, e o expediente de trabalho de meus amigos adolescentes, trabalhadores da fazenda, terminava ao meio dia, como ainda era cedo fui dar uma volta, subi em alguns cajueiros e enquanto eles ralavam eu fiquei de papo pro ar até a hora de encontrá-los e convidá-los para dormir na Casa Grande até segunda-feira, mas sabia que não podia convidar a turma inteira porque acabaríamos dando um enorme desfalque na despensa e então, quem eu encontrasse primeiro iria convidar e, no máximo quatro amigos para ficarmos no quarto com dois beliches e uma cama. Quando acabei de depenar dois cajueiros e esconder as castanhas para depois torrá-las, desci a ladeira em direção ao barracão e já avistei dois amigos indo tomar banho no rio, o Bil e o Dedé, todos cobertos com pó da cana queimada, dois irmãos cortadores de cana. Bil, o mais velho, vivia corrigindo o irmão aprontador e palhaço. Convidei-os e em coro perguntaram: E o dotô deixou? – Ele ainda não sabe, mas é claro que não vai se importar, disse eu, com cara de aprontador. Eles adoraram a idéia e fomos descendo pro rio e fazendo planos para a noitada.
Chegando ao rio quem estava lá? O Zé do Zé Júlio e o Pomonha, dois craques de futebol, o Zé todo certinho e responsável, era pau pra toda obra, tanto cortava cana quanto fazia outros serviços e, o Pomonha também, fazia de tudo, mas, era considerado o vagabundo da fazenda, preguiçoso e malandro.
Pronto, estava fechado, iríamos nos divertir muito, os planos eram: comer muito, jogar pif-paf (cartas) até a luz de motor desligar às 9 da noite, aí passávamos a contar estórias e dormir para acordar bem cedo para a vadiagem de domingo: celar os cavalos e burros e, alguns mesmo sem cela, só com manta e cabresto, e partir para a feira da Usina Sinimbú a 14 kilômetros da fazenda e voltar pelas terras do outro lado, próximas ao asfalto, a pista da BR 101. Mas, essas são outras estórias.
À tarde ainda nos encontramos no campo de futebol e, antes que todos chegassem pedi aos quatro amigos que não dissessem aos outros que iríamos dormir na Casa Grande, porque eles não iriam se sentir bem, apenas marcamos com eles no dia seguinte às seis da manhã na cocheira para irmos à feira. Depois do jogo, tomamos banho de rio e, já estava anoitecendo quando nos despedimos.
À noite todos chegaram com suas melhores roupas: camisa de botão, calça tergal e chinelo. Conversamos um pouco e fomos arrumar a mesa e esquentar a comida. Já tinha almoçado feijão com farinha e charque (carne seca) nas casas de pau-a-pique de alguns deles, junto à suas famílias, e eles só tinham costume de comer usando a colher ou as mãos. Forrei a mesa e coloquei as facas, garfos e guardanapos, mas não as colheres, quando eles se entreolharam e riram. Dedé fazia palhaçadas imitando um grã-fino abotoando a camisa, o Bil, apesar de quase banguela, sorria encantadoramente feito criança que recebe um presente, o Pomonha estava estirado com os pés na cadeira, palitando os dentes e rindo e, o Zé do Zé Júlio, que era meio gago (eu também, mas era ¼ de gago), dizia: -- Oxê, eueu sósósó sei cocococomê de cuié. , E o Bil retrucou: --- Oxênte, que cabra abestado e inginoranti. E eu me divertia com tudo.
Bom, depois de jantarmos fomos jogar cartas até o apagar da luz, então acendemos um lampião, cada um deitou numa rede e ficamos proseando, jogando conversa fora e, é claro que, histórias de assombração não faltaram; caipora, curupira, mula sem cabeça, alma penada e lobisomem. Dedé contou que há alguns anos, em toda lua cheia, um cabra que trabalhava na fazenda, se fantasiava de lobisomem, entrava em um barril e despencava de cima de uma ladeira se arrebentando lá em baixo no povoado. O maluco saía gritando e correndo atrás de todo mundo. Dizem que ele acabou levando uma cossa do povo e sumiu pra nunca mais voltar. Vê se pode?
Já era perto da meia-noite quando fomos dormir no quarto do fundo da casa. Era noite de lua nova e não se enxergava nada lá fora, a não ser o vulto da mata fechada na encosta do morro que beirava a janela onde estávamos. Deitamos e conversamos um pouco até que um a um foi dormindo.
O silêncio profundo tomou conta e quase adormecendo eu só ouvia o som dos grilos, dos sapos, do vento nas árvores e dos morcegos que moravam nas telhas à cima de nós, de repente, ouvi um som estranho, parecia um gemido, e em seguida um som de madeira arranhada. O som começou a ficar mais alto e percebi que era na madeira da janela. Abri os olhos, espantado, e cutuquei o Zé, que arregalou os olhos e cutucou o Pomonha, logo todos se entreolharam assustados e de repente os sons voltaram nos deixando desesperados. Era um arranhado na janela acompanhado de um gemido, um sussurro de uma voz visceral, sobrenatural, parecendo um grito distante de outro mundo: Aíiiiiiiiiiiiiiiii..., crcrcrcrcrcrcr..., Aíiiiiiiiiiiiiiiii..., crcrcrcrcrcrc...rrrrrrrr. Imediatamente todos se cobriram inteiramente com os lençóis só deixando os olhos de fora, e os sons estranhos continuavam como se chamassem por alguém, Aíiiiiii, rrrrrrrrr, Aíiiiiii, rrrrrrrr , o Dedé disse baixinho: --- não responde, não responde porque morre! Quem responder morre!
Todos apavorados, não sabendo o que fazer e não podendo gritar senão morria. Começamos a sussurrar ao mesmo tempo um pro outro, o Zé, que era gago, começou a rezar um Pai Nosso em voz alta, sem gaguejar e a mil por hora. Ah! Ah! Ah! Enquanto isso a voz e a ranhura na janela continuavam de forma lenta, sistemática e aterrorizante, de repente pararam, silêncio, todos se calaram e ficaram ouvindo. Silêncio total, tensão no ar... De repente: Aíiiiiiiiiiiiiiii..., crcrcrcrcrcr... rrrrrrrrr, Aíiiiiiiiiiiiii, rrrrrrrr... A voz voltou e o susto foi tanto que todos deram um pulo e gritaram: --- Meu Deus do Céu. --- Ave Maria! --- Valei-me Nossa Senhora. --- Meu Padin Padi Ciço. Aí comecei a ficar invocado e disse em voz alta pro Bil, mas, pra assombração ouvir: --- Ô Bil pega o 38 aí nessa gaveta que eu vou pegar o rifle do Tio. Era mentira, não existia 38 e o rifle estava sem bala. Mas, a assombração não sabia. Ou será que sabia? Bom, na dúvida largamos o rifle e pegamos foices, peixeiras, faca e tesourão e saímos tremendo de medo para rodear a casa em fila indiana.
O primeiro da fila com um lampião e o último com uma vela, mas pra formar a fila ninguém queria segurar o lampião e a vela, todos queriam ir no meio, aí já estávamos rindo, chorando e a ponto de correr, mais o Pomonha, o mais velho, aceitou ir à frente e o Dedé atrás. Aí o Pomonha deu a voz de comando: --- Então vamos, mas atenção: Ninguém olha pra trás pra não ver a cara do Dedé segurando a vela no escuro, que o cabra morre de susto.
Depois dos risos e nervosismos e de conseguirmos fazer silêncio, fomos rodear a casa nas pontas dos pés e com os braços levantados segurando as armas brancas, como samurais, prontos para o ataque. O auge da tensão foi quando chegamos à janela da assombração, a sensação do ar abafado e de que há qualquer folha que caísse no chão todos correriam. Mas ali não havia nada, nem vento nem viva ou morta alma, ninguém, era só a calçada entre a casa e a mata, mas de repente, um barulho estranho no mato e, o Dedé gritou: --- O que é aquilo minha gente? Eu só sei que ninguém se deu o trabalho de olhar pra ver a assombração e nem o Dedé com a vela, todos gritamos feito loucos e salve-se quem puder, saímos correndo ladeira abaixo e só paramos no barracão, na porta do Zé Titio, o administrador da fazenda. Dedé estava pálido e disse que viu uma sombra andando no mato.
Zé Titio pediu a dois filhos mais velhos que nos acompanhassem até a casa grande e dessem uma vistoriada na casa e nas imediações, e agora nós fomos cheios de moral com dois adultos, mas não encontramos viva alma nas redondezas. Mistério. Só conseguimos dormir de cansados, depois de horas achando que o gemido poderia voltar.
Aquele acontecimento me deixou preocupado, já não era a primeira vez, e quem eu encontrava, falava do acontecido. O tempo passou, voltei pra Maceió e pro Rio.
Um ano depois, nas férias de verão eu estava na fazenda de novo e, no final de uma pelada percebi que numa roda de amigos, dois estavam contando piadas ou alguma estória, pois todos estavam rindo, quando me aproximei, ouvi parte do que falavam e fiquei pasmado; a assombração da janela tinha sido um susto que três amigos nos deram, porque não tinham sido convidados para dormir na Casa Grande. O Bastião, o Pedro e o Ciço se fizeram de assombração. Eu, Bil Dedé, Pomonha e Zé saímos correndo atrás dos filhos da mãe que nos deram um susto arretado e só nos contaram um ano depois.
À MEMÓRIA de todos esses grandes amigos.

